A Comissão Municipal da Verdade de Vitória da Conquista foi criada com a finalidade de apurar violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar. Esta ferramenta contribuirá para os trabalhos das Comissões Estadual e Nacional da Verdade, levantando informações acerca dos fatos ocorridos no município nesse período.

Nesse sentido, na noite dessa segunda-feira, 25, foi realizada uma audiência no plenário da Câmara Municipal de Vitória da Conquista para colher o depoimento da arquiteta e urbanista baiana, Maria José Malheiros, que viveu durante quarenta anos na clandestinidade. Em Vitória da Conquista, foi registrada pelo líder camponês José Gomes Novais, passando a se chamar Maria José Novais.

Maria José Novais

Joás Meira

Maria José Novais foi apenas um dos três nomes que teve durante sua vida. Há trinta anos morando na França, Maria decidiu no dia 24 de outubro deste ano reabrir o processo de anistia, concedido em 1979 a todos os brasileiros punidos pelo regime militar, e pedir a regularidade definitiva de sua identidade. “Eu sonhava com a liberdade, mas a ditadura me fez sua escrava. Tive de carregar o peso de não ter sido presa, mas de ver muitos dos meus amigos confinados e hoje fazer esse depoimento é uma prova de que eu consegui me libertar”, explicou.

O vice-prefeito Joás Meira, que na ocasião representou o prefeito Guilherme Menezes, abordou a importância da militância de Maria para a história do país. “A sua história nos emociona pelos diversos direitos que lhe foram caçados, como o de ter amigos, identidade, passado nessa fase da história do nosso país. Suas lutas são o legado que nos conferiu o direito de divergir”, afirmou.

Marcelino Galo

Segundo o deputado estadual e presidente da Comissão Estadual da Verdade, que também acompanhou a audiência, deputado Marcelino Galo, os trabalhos das comissões devem continuar em todos os lugares do país. “Temos que intensificar nossos trabalhos e a mobilização pela verdade porque isso vai nos levar a fazer a justiça, que é o que nos interessa”, ressaltou.

Ruy Medeiros

O advogado e historiador, Ruy Medeiros, membro da Comissão Municipal, ressaltou a importância deste momento e a vida na clandestinidade. “Essa é uma oportunidade de ouvir o que sofreram pessoas que combateram a ditadura militar. O fato de viver na clandestinidade traz um sofrimento muito profundo porque a pessoa tinha que se movimentar sem despertar a atenção da polícia e do órgão de repressão. Era uma situação muito difícil, viver com o medo constante de ser encontrada”.

Emiliano José

O jornalista Emiliano José foi um dos principais amigos de Maria e acompanhou toda essa luta e sofrimento vivenciado por ela. “Fui testemunha do sofrimento ao qual ela foi submetida. Hoje as três Marias se fundem numa única pessoa. Ela nasceu em Palmas de Monte Alto, no oeste baiano, batizada Maria Neide de Araújo Moraes, a primeira Maria. Ainda menina foi para Goiânia. Aluna de Belas Artes tornou-se chargista de jornal, enfrentou a primeira prisão em 68. O AI-5, a demissão do jornal, a expulsão de Belas Artes, a segunda prisão convencem-na de desaparecer de Goiânia. Em novembro de 1971, Heládio de Campos Leme, seu companheiro, foi preso e ela tornou-se então definitivamente uma clandestina”.

Florisvaldo Bittencourt

Canal de interatividade – Na noite dessa segunda, também foi divulgado o site da Comissão Municipal da Verdade, o www.comissaomunicipaldaverdade.com.br. Este será mais um espaço para a população pesquisar e obter mais informações sobre o período da ditadura militar e para contribuir com os trabalhos realizados pela Comissão Municipal.

“Nosso objetivo é recontar a nossa própria história para que as gerações futuras tenham noção de todos os acontecimentos nesse período. Estamos reunindo diversos documentos para que no próximo ano possamos produzir e publicar um livro que sirva de pesquisa para todos, com acesso livre na Câmara e em todas as escolas”, disse o presidente da Comissão Municipal da Verdade, Florisvaldo Bittencourt.

Também participaram da audiência o chefe de Gabinete, Márcio Higino Melo, o secretário de Governo, Edwaldo Alves, o presidente da Comissão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Inácio Gomes, os filhos de José Gomes Novais, Ivone Novais e José Carlos Novais, entre outros convidados.