Ele era o protagonista, mas fez questão de convidar seu público para dividir com ele o papel principal do espetáculo

“Festival da Juventude”, gritou Otto ao microfone, antes de beber um gole d’água e despejar o restante do copo sobre a própria cabeça, ensopando os longos cabelos encaracolados e levando o público ao delírio. Foi só o início do espetáculo. A julgar pela empolgação de ambas as partes – o artista e o público –, o show da noite de sábado, 11, continuaria madrugada adentro.

A satisfação era perceptível tanto no público quanto no próprio Otto. E para o público não foi exatamente uma novidade, já que, na noite anterior, o cantor e compositor pernambucano já havia dado uma amostra de seu carisma ao aparecer de surpresa no show da cantora Tulipa Ruiz – e, inclusive, sendo convidado por ela para um dueto. Otto, naturalmente, não se fez de rogado e cantou com Tulipa para o público do Festival da Juventude.

No show de sábado, no entanto, foi diferente. O protagonista, desta vez, era Otto, mas o artista fez questão de convidar seu público para dividir com ele o papel principal do espetáculo. “Estou adorando fazer este show aqui em Vitória da Conquista”, disse, a certa altura.

Também, pudera. Otto se divertiu e divertiu o público. A sintonia que ele demonstrava com os músicos transmitia a impressão de que estava mesmo entre amigos, e que por isso se sentia totalmente à vontade. Dessa forma, sentiu-se livre para desfilar sua mistura de ritmos, mas também de subverter o cronograma original do show e enriquecê-lo com improvisos em que homenageou Reginaldo Rossi, Odair José, Jackson do Pandeiro e até o conquistense Elomar Figueira. Ao fim da apresentação, Otto não se esqueceu de citar o velho companheiro do mangue beat, Chico Sciense (1966-1997), e o vocalista da banda Charlie Brown Jr., Chorão, falecido no último dia 6 de março.

Preservação – “Já vi que o festival é feito pela juventude. É a preservação da melhor música brasileira. Se a Prefeitura e as pessoas estão com essa noção, isso já é válido para gerações. Buscar os melhores representantes da boa música brasileira contemporânea é a joia deste festival”, elogiou Otto, ao manifestar-se sobre o evento realizado pela Prefeitura de Vitória da Conquista, com o apoio da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), da Faculdade Independente do Nordeste (Fainor) e do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.

Sem preconceito – A diversidade, marca característica do Festival da Juventude, manifestou-se quando a Prefeitura decidiu incluir no mesmo evento Otto, uma legítima cria da mistura de ritmos musicais populares e estrangeiros que resultou no movimento mangue beat, e um ardoroso defensor da pureza da cultura nacional – o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, que, no dia 10, ministrou a conferência de abertura do festival.

Otto vê a mistura com naturalidade. “Isso é olhar para o Nordeste sem preconceito e sem rivalidade. Para mim, Jorge Amado e Glauber Rocha também são pernambucanos como Ariano. Nós vamos sempre falar a nossa realidade. São os sertões”, observou.