Em Vitória da Conquista, o São João começa muito antes das fogueiras serem acesas. Nos corredores da Ceasa, nas feiras livres e nas pequenas fábricas espalhadas pela cidade, o período junino já movimenta produtores, comerciantes e consumidores em torno de uma tradição que atravessa gerações: os biscoitos conquistenses. Entre fornadas quentes, receitas familiares e prateleiras cada vez mais cheias, a Capital Estadual do Biscoito vive uma das épocas mais importantes para a economia e para a cultura local.

Reconhecida oficialmente como Capital Estadual do Biscoito pela Lei Estadual nº 14.688/2024, Vitória da Conquista transforma a tradição em renda, memória afetiva e movimento econômico. Segundo estimativas do Sebrae, o município produz cerca de 4 mil toneladas de biscoitos por ano e possui mais de 40 fábricas artesanais.

Na Ceasa, principal polo de comercialização da iguaria, o clima já é de expectativa. Coordenador do espaço, Ramon Soares explica que o segmento ocupa uma fatia significativa das feiras do município.“Mais ou menos 40% a 45% das feiras do município são de biscoitos. A Ceasa hoje atrai muito público das regiões circunvizinhas, principalmente na época dos festejos juninos, o galpão de biscoitos é o mais movimentado”, afirma.

Além da Ceasa, a venda de biscoitos também está presente no Mercado Municipal do Bairro Brasil, na Feira Municipal do Bairro Patagônia, na Feira Municipal do Bairro Alto Maron e no Mercado de Carnes do Bairro Brasil. Há ainda comercialização nas feiras administradas por associações comunitárias, como as dos bairros Urbis VI, Urbis V e Vila América. O espaço da Ceasa concentra cerca de 200 boxes voltados para a venda do produto, dentro de um universo de aproximadamente mil boxes existentes no centro de abastecimento

Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Marcos Ferreira, o período junino impulsiona ainda mais um setor que já se consolidou como símbolo da cidade. “A capital oficial do biscoito vive um momento muito alvissareiro em relação à sua produção”, destaca. Segundo ele, apesar da ausência de números mais precisos devido à falta de organização formal do setor, o crescimento é perceptível, especialmente nesta época do ano.

O secretário conta que o biscoito conquistense já ultrapassou as fronteiras regionais e passou a ocupar espaço em eventos de promoção econômica do estado. “Nós participamos recentemente de uma feira promovida pela Fieb, pelo Sebrae e pela Bahia Eventos, em Salvador, e levamos o café e o biscoito como destaques da nossa região”, relata. O reconhecimento é tão forte que até a linguagem dos eventos mudou. “Nós já combinamos dentro do trade para não chamar mais de coffee break. Agora é ‘hora do café e do biscoito’”, brinca o secretário.

Com o Arraiá da Conquista, a expectativa é de crescimento nas vendas entre 15% e 20%, movimentando não apenas o setor de biscoitos, mas toda a cadeia ligada aos festejos juninos.

E quem vive essa tradição há décadas sabe exatamente quando o São João começa a “aquecer”. Para o feirante Tercícilio Lima, o calendário junino tem cheiro e sabor próprios. “Eu comecei a trabalhar com biscoito desde 1980. Toda a vida, o meu trabalho é biscoito, requeijão, farinha e manteiga”, conta. Hoje, ele comercializa cerca de 70 sabores diferentes e aguarda o período junino como a melhor época do ano para o comércio. “É durante o São João que as vendas estouram muito. Ficamos ansiosos esperando essa época.”

Entre os corredores da Ceasa, também estão histórias que se confundem com a própria trajetória do espaço. Aos 55 anos, Isalda Costa Santos lembra que chegou ao local ainda adolescente, em meio às dificuldades financeiras da família. “Meu pai estava desempregado, minha mãe também. A gente conseguiu um ponto aqui na Ceasa para vender verdura”, relembra.

Mas foi no galpão dos biscoitos que a história da família mudou de rumo. Sem experiência no ramo, começaram devagar: dois sacos de farinha, poucos quilos de biscoito e uma banca improvisada. “Eu só tinha condições de comprar três quilos de cada biscoito”, lembra.

Hoje, décadas depois, ela comemora o crescimento da clientela, construída de geração em geração. “Tem pais que compravam com a gente e hoje os filhos e os filhos dos filhos continuam vindo aqui”, conta emocionada. No São João, a movimentação se intensifica tanto que já foi necessário contratar reforço para as vendas. “A gente já está contratando mais duas pessoas, porque aumenta a quantidade de gente comprando”, diz.

E os biscoitos conquistenses seguem viajando o mundo. Isalda conta que, recentemente, uma cliente levou uma mala cheia da iguaria para os Estados Unidos, e depois o produto ainda seguiria viagem para a Ruanda. “São João tem que ter biscoito”, resume.

Quem também conhece de perto a força dessa tradição é Alzira Ribeiro, a Dona Zinha, de 76 anos. Há 41 trabalhando no ramo, ela começou vendendo na praça antes de conquistar seu espaço no galpão da Ceasa. “Desde então só trabalho com biscoito aqui”, afirma.

Hoje, ela mantém uma equipe com cinco pessoas e produz grande parte dos próprios produtos em uma fábrica no bairro Panorama. Quando perguntada sobre qual sabor não pode faltar no São João, a resposta vem sem hesitar: “Na época do São João mesmo, o que mais sai é chimango. Todo dia tem chimango quentinho chegando.”

Entre avoadores, sequilhos, casadininhos, chimangos e beijus, Vitória da Conquista mantém viva uma tradição que atravessa gerações e ganha ainda mais força no período junino. Mais do que um produto típico, os biscoitos movimentam a economia local, geram emprego e preservam histórias de famílias que há décadas fazem desse comércio parte da cultura conquistense.