“O objetivo é contribuir com a melhoria das condições de saúde e de trabalho das pessoas que nos procuram”, diz coordenadora

Com apenas oito anos de idade, o conquistense Hermano Faria se deu conta de que precisava trabalhar para ajudar nas despesas da família. Arranjou então um carrinho de mão e foi fazer fretes nas feiras livres de Vitória da Conquista, durante os anos 70. E foi esse o impulso que o moveu pelas três décadas seguintes – quase sempre em atividades que lhe exigiam grande esforço físico. Quando adquiriu a carteira de trabalho, aos 17, especializou-se no ramo de laticínios, trabalhando como pasteurizador. Foi essa a profissão que exerceu na maior parte de sua vida profissional. Mas, durante os períodos em que esteve desempregado, procurou manter-se em atividades como pintor, pedreiro, carpinteiro – herança dos ofícios que aprendeu na infância. “Fiz de tudo um pouco”, diz ele hoje, já com 48 anos e cinco hérnias na coluna, que o impedem de continuar no batente.

Ele se lembra de seis anos atrás, quando começou a sentir as consequências de mais de trinta anos dedicados quase que exclusivamente ao trabalho pesado. “Cheguei ao ponto de começar a andar torto, sentindo dores pelo corpo. De manhã, tinha que tomar uma injeção. E, quando voltava para casa, tinha que tomar outra”, relata. As dores se intensificaram, mas ele tentou permanecer no emprego, numa fábrica de laticínios. No entanto, tornaram-se de tal forma insuportáveis que o impediram de continuar a desempenhar suas funções. “Eu não estava mais aguentando trabalhar”, conta.

Desempregado e doente, Hermano soube da existência do Centro Regional de Atenção à Saúde do Trabalhador (Cerest), serviço do Sistema Único de Saúde (SUS) vinculado à Prefeitura de Vitória da Conquista, por meio da Secretaria Municipal de Saúde. O Cerest se destina a prestar assistência especializada a pessoas que, assim como Hermano, adoeceram em consequência de suas atividades laborais.

Hermano Faria

‘Apoio moral’ – Orientado a recorrer ao serviço, Hermano resolveu tentar. E, a julgar pelo que diz hoje, não se arrependeu. “É bom demais”, resume. Assim que chegou, a equipe lhe prestou acolhimento e, após ouvi-lo, identificou que ali havia, de fato, uma demanda típica daquelas a que o Cerest se propõe. Hermano foi encaminhado a uma equipe multidisciplinar de profissionais e conseguiu consultar-se com um médico do trabalho. O acolhimento ajudou-o a recuperar a autoestima, que havia baixado por conta da decepção que se seguiu à doença e à demissão. “Cheguei a pensar no suicídio porque, depois que adoeci, achei que não servia mais para o mercado de trabalho. Eu era uma pessoa inútil”, lembra. “O psicólogo ensina a gente a viver, a caminhar. Ele nos dá um apoio moral”, relata.

A equipe do Cerest fez visitas ao estabelecimento onde Hermano trabalhava e constatou que as hérnias foram, sim, causadas pelas atividades que ele desempenhava ali. Após a constatação, foi elaborado o “nexo causal”, um relatório médico que comprovou oficialmente a origem dos problemas de saúde de Hermano e permitiu que ele recorresse ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em busca da concessão de um auxílio doença. É com esse recurso que ele se sustenta até hoje, já que precisou se afastar do trabalho pesado.

Jamilly Gusmão

Saúde e segurança – Casos como o de Hermano são rotineiros para a equipe do Cerest. Em 2013, ano em que completou dez anos em atividade, o serviço prestou atendimento semelhante a 1.003 trabalhadores – número 6,4% maior que o registrado no ano anterior. Ao longo dessa década em funcionamento, houve um total de 12.168 atendimentos. “O objetivo é contribuir com a melhoria das condições de saúde e de trabalho das pessoas que nos procuram, sejam elas trabalhadoras do serviço público ou do serviço privado”, explica a coordenadora do Cerest, Jamilly Gusmão.

Além disso, a equipe realiza ações de vigilância, como inspeções em empresas públicas e privadas. “Levantamos os riscos relacionados ao trabalho, elaboramos um relatório e o encaminhamos à empresa para que ela possa se adequar às normas de saúde e segurança do trabalhador”, informa Jamilly. O serviço atua em conjunto com a Comissão Intersetorial de Saúde do Trabalhador, a fim de coordenar toda a política desenvolvida no município, especificamente para esse fim.

Música – Hoje, Hermano ainda convive com as hérnias, mas monitora regularmente seus problemas de saúde, graças às consultas que consegue agendar por meio da equipe do Cerest. Após seis anos recorrendo ao serviço, ele garante ter chegado à conclusão de que ainda tem muito por fazer – inclusive em atividades às quais jamais havia imaginado que poderia se dedicar, como a música. Ele faz parte do coral do Cerest, cujos ensaios ocorrem a cada quinze dias. “Se eu estiver sentindo dor, ela some só de pensar em vir para o coral”, empolga-se, ressaltando que, se não houvesse recorrido ao serviço, sua vida teria tomado caminhos bem menos agradáveis. “Eu teria perdido meus filhos e minha esposa. Hoje, tenho todos do meu lado”, afirma. “Eu não sou um inútil. Sirvo muito, até mais do que eu pensava”.