Quando a Prefeitura anunciou a grade da programação do Arraiá da Conquista, houve quem dissesse que, num evento junino e marcadamente popular, poderia não haver lugar para um repertório como o do compositor e multi-instrumentista Hermeto Pascoal. Mas, quem assistiu ao show do artista no Centro Cultural Glauber Rocha, ontem (23), o primeiro do palco principal do Arraiá da Conquista, pôde ver que havia, sim, lugar para algo que fugia do convencional.

Entre os espectadores mais atentos, que se postaram bem próximo do palco onde Hermeto e seus músicos se apresentavam, as frases se misturavam: “O cara é bom!”, “o cara é fera!”. Houve até quem dissesse que “o cara é punk!”, referindo-se à irreverência e à “loucura” que o “bruxo” Hermeto Pascoal mostrava no palco – algo incomum e talvez surpreendente para um senhor de 86 anos.

Já Xangai, compositor e cantador e, atualmente, no cargo de secretário municipal de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, chamou-o publicamente de “gênio”.

“Bom”, “Fera”, “Punk” e outros menos notáveis não foram os primeiros adjetivos que foram aplicados a Hermeto. Ao longo de suas mais de seis décadas como artista profissional, o alagoano de Lagoa da Canoa já foi chamado por muitos nomes. Quando era criança e se apresentava em festas ao lado do irmão mais velhos, José Neto, albino como ele, ambos eram chamados de “Os Galegos”.

Anos mais tarde, quando o “galego” já era um artista reconhecido internacionalmente, inclusive por nomes como o do jazzista norte-americano Miles Davis, que o elogiou em público várias vezes, Hermeto se tornou o “bruxo”. Não só pelos longos cabelos e barbas alvos como algodão, que lhe dão uma aparência semelhante à do personagem Dumbledore, dos livros e filmes do personagem Harry Potter.

O que motivou a crença em suas “bruxarias” foi o virtuosismo que o caracteriza em sua produção musical – que é uma das mais prolíficas do mundo artístico. As contas mais atualizadas revelam que Hermeto possui mais de dez mil composições. Essa obra conquistou admiradores e gerou reverências das quais ele teria todos os motivos para se orgulhar.

Elis Regina, com quem Hermeto dividiu um histórico dueto no Festival de Jazz de Montreaux, no Canadá, em 1979 (na qual ambos se puseram a uma série de improvisações que incluíram uma interpretação do clássico Asa branca), chegou a afirmar que o músico era “um deus nascido nas Alagoas”.

Mas Hermeto, de sua parte, prefere conferir o status de divindade a quem o houve e aprecia sua obra. Disse, numa entrevista: “Na minha opinião, o público é o verdadeiro deus da música”. E, se o clichê diz que a voz do povo é a própria voz da suprema divindade, ouçamos o que alguns representantes do povo, ou de “deus”, disseram sobre a apresentação de Hermeto Pascoal na primeira noite do Arraiá da Conquista no Centro Cultural Glauber Rocha.

Universalidade e sofisticação

A fusão da sofisticação do jazz com o regionalismo dos ritmos nordestinos, um dos principais traços da obra de Hermeto Pascoal, já era conhecida pelo professor de música Tiago Mota, de 30 anos, que assistiu pela primeira vez a um show ao vivo do artista que aprecia desde a adolescência.

“Essa universalidade que ele traz, com elementos nordestinos, jazz, bossa nova, é tão sofisticada que é como se ele estivesse além, à frente do tempo”, avaliou Tiago.

Para Tiago, Hermeto é universal

Pernambucano, ele dá aulas de música há quatro anos no campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Baiano, em Itapetinga. Em suas aulas, Tiago costuma utilizar composições de Hermeto como material de estudo. Diz que os alunos estranham no começo, mas que, quando se aprofundam, começam a gostar.

“A história de Hermeto sempre está nas aulas, para mostrar sobre música instrumental. Sempre levo como música e estranhamento. Os meninos sempre se assustam. Mas, quando começo a explicar, eles entendem esse universo. E começam a compreender que há algo além da música convencional à qual eles estão habituados”, contou o professor.

“Ele não abre mão da essência nordestina. É peculiar demais. É música concreta, universal, livre de tons e padrões, notas e escalas”, concluiu.

Ele acaricia os nossos ouvidos

Para a jornalista paulistana Maricy Ribeiro, de 39 anos, foi a segunda vez num show de Hermeto. A primeira, anos atrás, foi num festival na cidade mineira de São João del Rey. A relação entre Maricy e a produção musical do artista parece transcender a mera admiração.

“Amo muito a música. Acredito que a cultura é o que nos impulsiona. Imagine, um senhor de 86 anos vir aqui e oferecer essa alegria nesta noite de São João”, disse a jornalista, que vive em Vitória da Conquista há cerca de um ano. “Ele tira música de onde não tem. Isso acaricia muito os nossos ouvidos”, afirmou.

A mãe de Maricy, a aposentada Maria Elisa Ribeiro, de 65 anos, que acompanhou o show ao lado da filha, bem perto do palco, também gostou do que viu e ouviu. “Ele é maravilhoso. A música dele é muito interessante. E os músicos dele são excelentes”, contou.