“Quando eu estava na UTI eu tive uma visão. Estava sentado em uma tora de madeira na porta do inferno. E eu vi Dante, que segurava a mão de Virgílio. Pude ver no portal do inferno a frase dele “lasciate ogni speranza, voi ch’entrate”*

Eu cheguei a ver a roda de fogo, mas a mão de Deus me tirou de lá. Fui arrebatado e trazido de volta.

Quando eu saí do hospital, minha mulher me disse que meus filhos João Omar e João Ernesto iam lá todo dia e chegavam em casa com os olhos inchados de tanto chorar. Deus ficou com pena deles e me trouxe de volta. O Espírito Santo me resgatou do vale da sombra da morte para eu estar aqui cantando e compondo.”

Crédito: João Pedro Ferraz (LinkNews)

Era quase tudo como antes. No palco, ele, aparência gigante sentado, com os indefectíveis chapéu e botas. Na plateia, respeito e admiração. Entre os produtores o cuidado com o som, luz e para que não o filmassem, coisa que o incomoda.

Quase tudo como antes. O gigante não é mais tão forte. A voz ainda tem o timbre inconfundível, mas não tem o mesmo domínio sobre agudos e graves, não faz a mesma viagem de tons a semitons. Os dedos não mais conseguem lidar com as cordas como era, para delas tirar os belos concertos que encantaram o mundo tantas vezes. “Mas, vou me consertar, com fé em Deus, e o violão vai voltar”.

Crédito: João Pedro Ferraz (LinkNews)

E o que faz o gigante? Se desculpa. Fala da Covid-19 que o levou ao encontro de Dante e de Virgílio na beirada do inferno. A doença, que ele chamou de peste amarela, lhe tirou parte do vigor das pernas, da energia da voz e do dedilhar orquestral reverenciado.

Elomar Figueira Mello, o “Bode”, que já foi Figueira de Melo, com esse “de” e um “ele” a menos, será um gigante para sempre e esse para sempre quer dizer: depois que ele passar da meia-noite e atravessar os umbrais do céu ou os pórticos infernais.

Hoje, nas cinco e meia da tarde (você entenderá), ele só é bem como era antes, ele mesmo disse. Fez questão de deixar isso claro, como a lua gibosa decrescente que o assistiu voltar aos palcos, em sua terra natal, depois de dois anos de pandemia e de ter chegado tão perto da morte.

“Nós vamos cantar uma canção aqui agora e se a plateia quiser ajudar pode também. (gritos entusiasmados do público). Geralmente esses cantores famosos eles gostam que a plateia cante com eles e ficam fazendo assim, ó (levanta as mãos como se imitasse uma dessas estrelas do trio elétrico ou do programa musical da TV. Muitos risos). Eu não. Quem está aqui para cantar sou eu. Agora, nessa eu dou a licença, podem cantar” (aplausos).

Isso foi na hora de “Arrumação”, uma riqueza do cancioneiro elomariano. Um raro momento, em se tratando de Elomar, o maestro, um dos maiores músicos vivos deste Brasil, quem, sempre se soube, nunca teve muita paciência com manifestações da plateia. Naquela noite de retorno, no Festeccon, em sua cidade, ele chamou o público para cantar com ele.

Nem os grupos de meninos e meninas de escolas municipais que faziam algazarra a metros do palco tirou a paz do malungo das barrancas do Rio Gavião, dito carrancudo e impaciente.

Depois de cerca de uma hora e meia de apresentação, Elomar desceu do palco e pediu para ir ao banheiro. Do palco ao banheiro químico eram menos de dez metros. Elomar levou cerca de 20 minutos para chegar. Andava devagar, aceitando pacífico a minha ajuda no caminho. Mas a demora não foi por isso.

Pessoas o paravam no curto caminho, falavam de sua admiração, ele retribuiu sorrisos e abraços. Só fez uma correção, gentil. Uma mulher disse que amou o show. “Muito obrigado. Concerto”.

Ao chegar ao banheiro químico só murmurou que estava escuro. Na saída, mais gente. Mais elogios. Empolgação ao encontrar uma adolescente com a mãe, conhecidas dele. “Como cresceu. Era uma pequenina. Graças a Deus!”.

Mais demora no caminho de volta. Para o camarim. Vi que estava emocionado. Aquela gente o emocionava ao declarar sua admiração e respeito. O menestrel da caatinga sorria.

Sentado em um sofá, ele falou da sua gratidão por estar vivo e por estar ali recebendo carinho e afeto. Cativava pela simpatia. Sim, Elomar. Falo dele.

Perguntaram como ele se sentia aos 83 anos. “Eu vou fazer 85. Estou vivo, pela graça divina, melhorando. Me salvei da Covid e ficarei muito melhor”

Ao poeta e secretário municipal de Educação, Edgard Larry, Elomar disse que está chegando nas cinco e meia da tarde e quis saber em que horas já estava o amigo. Larry não entendeu imediatamente a metáfora. “Você já tem 50? Se tem, está exatamente ao meio-dia”, explicou rindo.

Me perguntou quantos anos eu tenho. Respondi 61 (completarei em 7 de dezembro). “Então, você está às duas e meia da tarde”. Ao que eu emendei: “Ainda bem que já almocei”. E assim, tirei do compositor, poeta, cantador, dado como sisudo, uma sensacional gargalhada.

No dia 17 de dezembro, Elomar vai fazer um concerto, maior, mais completo, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Vai ser diferente do que foi a apresentação da noite em que ele voltou a cantar em público após a Covid-19. Ele também diferente, certamente, mas, como sempre gigante.

Um gigante que compõe riquezas musicais, canta e gargalha.

* (Deixai toda a esperança, ó vós que entrais – Dante Alighieri, in Divina Comédia).

Giorlando Lima