Divulgado nesta terça-feira (26), a edição de 10 anos do Atlas da Violência 2026, elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), traçou um novo panorama da letalidade no país. O município de Vitória da Conquista apresentou números que o colocam na posição de grande cidade baiana (com mais de 100 mil habitantes) com a menor taxa estimada de homicídios, consolidando-se como a cidade mais segura do estado neste recorte.

Em meio a um cenário de extrema concentração da violência na região Nordeste e, especificamente, no estado da Bahia, Vitória da Conquista também está presente no ranking dos 15 municípios de grande porte menos violentos do Nordeste.

Os dados do relatório levam em consideração não apenas os homicídios oficialmente registrados, mas também os chamados “homicídios ocultos” (mortes violentas com causa indeterminada que, após análise de dados, são reclassificadas como homicídios). O levantamento referente ao ano de 2024 revela o seguinte quadro para a cidade:

• População: 394.024 habitantes.
• Homicídios Registrados: 103 casos.
• Homicídios Ocultos: 3 casos.
• Total de Homicídios Estimados: 106 vítimas.
• Taxa de Homicídios Estimados: 26,9 para cada 100 mil habitantes.

Embora a taxa de 26,9 ainda esteja ligeiramente acima da média nacional de homicídios estimados para 2024, que é de 23,4, o município apresenta uma realidade diametralmente oposta à de seus pares estaduais e regionais.

Para compreender a relevância da posição de Vitória da Conquista, é necessário observar a conjuntura macrorregional exposta pelo Atlas da Violência 2026. A região Nordeste concentra 17 dos 20 municípios com mais de 100 mil habitantes que registraram as maiores taxas de letalidade no país.

O estado da Bahia responde sozinho por metade desse ranking das cidades mais violentas, abrigando 10 dos 20 municípios no topo da lista nacional. A taxa média de homicídios estimada na Bahia foi de 42,6 por 100 mil habitantes, 58% maior do que a taxa registrada em Vitória da Conquista.

Segundo dados do Índice de Progresso Social (IPS) 2026, divulgado na última quarta-feira (20), Vitória da Conquista aparece com o melhor desempenho em segurança pessoal entre os municípios baianos com mais de 100 mil habitantes. O levantamento atribuiu nota 46,80 à cidade e leva em consideração os índices: assassinatos de jovens, assassinatos de mulheres, homicídios e mortes por acidentes de transporte.

O secretário municipal de Segurança Pública, Cristóvão Lemos, destaca que o salto qualitativo na segurança de Vitória da Conquista, com a expressiva queda nos índices de letalidade entre 2024 e 2025, é reflexo direto da institucionalização de políticas locais. “A redução da violência letal vem diminuindo de forma significativa a partir de 2021, que é, exatamente, na gestão da Prefeitura de Vitória da Conquista, quando a Guarda Municipal também começa a trabalhar de forma estruturada. Nós estamos falando de uma gestão que assumiu a responsabilidade de compor esse mosaico de segurança com o desenvolvimento de projetos como o Plano Municipal de Segurança Pública”, ressalta Lemos.

Segundo Lemos, a estratégia do município é fundamentada na adesão às diretrizes do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), instituído pela Lei nº 13.675/2018. Lemos, que esteve à frente da Guarda Municipal antes de assumir a titularidade da Secretaria Municipal de Segurança Pública, defende o conceito de “Segurança Pública Básica” como o diferencial da gestão. “O que a gente observa é que os entes federativos que estão dentro da estrutura do SUSP vêm reduzindo a criminalidade. Vitória da Conquista está dentro dessa estrutura. Temos a Guarda Municipal como órgão operacional, com 200 agentes ocupando praças e logradouros, trabalhando em quatro agrupamentos distintos”, explica Lemos.

Ações preventivas e sociais

A atuação da SMSPDS não se resume a operação. O modelo conquistense aposta fortemente na prevenção e na ocupação do espaço urbano. Projetos de revitalização urbana, iluminação pública e a recuperação de espaços de convivência e lazer, realizadas pela Prefeitura, dificultam a ação criminosa. Com mais de 100 escolas revitalizadas, a rede municipal de ensino tem sido um instrumento crucial para oferecer novas perspectivas aos jovens, reduzindo o risco de cooptação pelo crime organizado e pelo tráfico de drogas.

Essa rede de proteção é composta também por grupos especializados, como a “Guardiã Maria da Penha”, que enfrenta a violência doméstica, e a “Patrulha Araceli”, voltada à proteção de crianças e adolescentes. O foco da gestão inclui a capacitação contínua, com a implementação da filosofia de “polícia comunitária” que contempla grupos de proteção, como o Grupo de Ronda Escolar e o Grupo de Proteção Preventiva Comunitária, utilizando não apenas instrução, mas também equipamentos adequados.

Transição tecnológica e o futuro do combate ao crime

Ao analisar a dinâmica do crime local, o secretário destaca uma transição relevante nos padrões criminais: a redução de roubos de aparelhos físicos, motivada pela mudança de interesse dos criminosos para crimes cibernéticos. Segundo Lemos, a lógica atual dos infratores é capturar o acesso a contas bancárias e cartões de crédito, ativos que se tornaram mais valiosos do que o hardware, evidenciando uma adaptação necessária das forças de segurança.

Para enfrentar esses desafios e manter os indicadores de letalidade sob controle, a Secretaria tem buscado o fortalecimento de sua estrutura. Isso inclui a expectativa pela adesão ao programa federal “Cidades Mais Seguras” e a criação do conselho municipal e de um fundo municipal para a captação de recursos.

Com o foco na integração entre o município e os órgãos de segurança pública estadual e federal, Vitória da Conquista projeta um cenário onde a segurança pública é construída através de um esforço coletivo e de longo prazo, mantendo-se, ano a ano, como referência no estado.