Notícia Destaque
Postado em 8 de novembro de 2026 as 08:03:40
Do Cine-Teatro Castro Alves ao Cine Madrigal, espaços de exibição cinematográfica fizeram parte da formação cultural da cidade e guardam lembranças de diferentes gerações.
Muito antes das salas de cinema instaladas nos centros comerciais, assistir a um filme em Vitória da Conquista era uma experiência que fazia parte da vida social da cidade. Escolher a sessão, encontrar os amigos, reunir a família, comprar uma guloseima e ocupar uma poltrona diante da tela grande eram momentos que movimentavam as noites e os finais de semana de muitos conquistenses.
A história da exibição cinematográfica no município começou ainda na primeira metade do século XX. Em 1934, o Cine-Teatro Castro Alves recebeu equipamentos de som, marco importante para o desenvolvimento do cinema na cidade. A partir daí, outras salas surgiram e acompanharam as transformações urbanas e culturais de Vitória da Conquista.
Na década de 1940, o Cine Israel, inaugurado em 1942, integrou esse cenário. Ao longo de sua trajetória, o espaço passou a ser conhecido como Cine Lux e, posteriormente, Cine-Teatro Conquista. Localizado na Praça Barão do Rio Branco, o equipamento realizava sessões diariamente e, aos domingos, chegava a oferecer até cinco exibições, segundo registros históricos reunidos pela Prefeitura.
Na década seguinte, o circuito de exibição ganhou novos espaços, entre eles o Cine Glória e o Cine Eldorado. Este último, situado na região do atual Bairro Brasil, ampliava as opções de lazer para moradores de outras áreas da cidade. Pesquisas sobre a história dos cinemas conquistenses apontam que as duas salas tinham capacidade para receber mais de 800 espectadores cada.
Duas inaugurações que marcaram 1968
O ano de 1968 foi especialmente significativo para a história do cinema em Vitória da Conquista. Em 22 de maio, foi inaugurado o Cine Madrigal, com a exibição do filme A Noite dos Generais. Pouco mais de dois meses depois, em 27 de julho, foi a vez do Cine Riviera, instalado na estrutura reformada do antigo Cine-Teatro Conquista.
As duas salas se tornaram referências do entretenimento cinematográfico local. O Madrigal, com sua estrutura moderna para a época, e o Riviera, que sucedeu outras importantes casas de exibição, integraram o cotidiano de uma população que encontrava no cinema uma das principais opções de lazer e contato com a produção audiovisual.
As salas também ajudaram a construir hábitos e lembranças. Para muitos jovens, ir ao cinema significava um programa especial, uma oportunidade de encontrar amigos, iniciar namoros e conhecer histórias de diferentes lugares do mundo. As sessões de filmes de aventura, faroeste, comédias e produções nacionais faziam parte do repertório de diferentes gerações.
Histórias que também aconteciam fora da tela
A memória dos antigos cinemas não é formada apenas pelos filmes exibidos ou pelas características arquitetônicas das salas. Ela também é construída pelas pessoas que trabalhavam nesses espaços e que, de alguma maneira, passaram a fazer parte da história cultural da cidade.
Um desses personagens é José de Souza, conhecido como Zé Baleiro. Vendedor de balas e doces desde os 16 anos, ele trabalhou durante muito tempo nos cinemas de Vitória da Conquista, inclusive no Art-Cine Madrigal.
Sua trajetória foi lembrada durante a Mostra Cinema Conquista, em 2013, quando o festival homenageou o antigo cinema e recuperou histórias de personagens que ajudaram a construir a memória daquele espaço.
Histórias como a de Zé Baleiro mostram que a experiência de ir ao cinema envolvia muito mais do que assistir a uma produção na tela. Havia trabalhadores, comerciantes e frequentadores que faziam daquele ambiente um ponto de encontro e convivência.
O legado do Cine Madrigal
Entre os antigos cinemas conquistenses, o Madrigal ocupa um lugar especial na memória coletiva. Depois de 39 anos de funcionamento, encerrou definitivamente suas atividades como sala de cinema em 30 de julho de 2007.
Em maio de 2014, a Prefeitura Municipal oficializou a aquisição do imóvel, com a proposta de destinar o espaço a atividades culturais e educativas, além de possibilitar a exibição de produções audiovisuais fora do circuito comercial.
Para Alecxandre Magno, secretário municipal de Cultura, a trajetória do Madrigal representa uma parte importante da história cultural de Vitória da Conquista e reforça a importância de preservar os espaços e registros que ajudam a contar a formação da identidade da cidade.
“O cinema tem um papel fundamental na formação cultural de uma cidade. Em Vitória da Conquista, antigas salas de exibição, como o Cine-Teatro Castro Alves, o Cine Ritz, o Cine Riviera e o Cine Madrigal, marcaram gerações e fazem parte da memória afetiva da população. Tenho uma relação especial com essa história, também pelas experiências que vivi nos antigos cinemas de rua e pela trajetória do meu tio, Jorge Luiz Melquisedeque, importante ativista cultural que contribuiu para o desenvolvimento do audiovisual no município. Preservar essa memória é reconhecer o papel de quem ajudou a construir nossa identidade cultural e reafirmar a importância de investir na formação de público, na produção audiovisual e na valorização dos nossos realizadores. Precisamos olhar para o futuro sem esquecer nossas raízes”, destacou o secretário.
Uma memória que atravessa gerações
Os antigos cinemas desapareceram da paisagem cotidiana, mas permanecem vivos nas fotografias, nos programas de exibição guardados em coleções particulares e, principalmente, nas lembranças de quem viveu aquela época.
Resgatar essa história é reconhecer o papel dos espaços culturais na vida da população e valorizar os personagens que contribuíram para a construção da memória conquistense.
Em cada sala, sessão ou encontro, há um pedaço da história de Vitória da Conquista. Uma história que merece ser preservada, conhecida pelas novas gerações e compartilhada por todos aqueles que ainda guardam na lembrança a emoção de assistir ao primeiro filme na tela grande.








