A mostra ‘Marcas de uma tradição’ está no Arquivo Público Municipal até sexta, 9, como parte da 1ª Semana Nacional de Arquivos

A dimensão histórica do conteúdo trazido pela mostra especial “Marcas de uma tradição”, que está disponível a quem quiser conferi-la até a próxima sexta-feira, 9, das 8h às 17h, no Arquivo Público Municipal (avenida Juracy Magalhães, nº 3920, próximo ao Shopping Conquista Sul), é inversamente proporcional à sua discrição.

Os poucos materiais expostos ocupam apenas uma sala, mas dizem muito a quem se interessar pela memória que eles evocam. Ao expor vários tipos de “marcas de fogo”, com as quais os fazendeiros marcavam a ferro quente os animais que eram de sua propriedade, a mostra traz um registro do período da República Velha (1889-1930) na região de Vitória da Conquista.

Foi nessa época, marcada pela concentração de poder político e econômico nas mãos de poucas famílias, quase todas dedicadas à criação de gado, que a Intendência da então Imperial Vila da Vitória decidiu estabelecer um controle fazendário sobre a pecuária. Assim, em março de 1893, o intendente Joaquim Correia oficializou a obrigatoriedade do registro oficial das marcas de ferrar gado.

A partir daí, todos os criadores passaram a ter de registrar suas marcas – geralmente com as iniciais do nome da família – na Secretaria da Intendência, pagando uma quantia de 1.200 réis. Essa medida incrementou a arrecadação de tributos pela Administração Municipal e estabeleceu uma organização mais eficiente da identificação da identidade dos bovinos, evitando conflitos entre fazendeiros e comerciantes.

Livros e objetos – Na mostra, os frequentadores podem verificar o “Registro de Leis e Resoluções do Conselho Municipal”, livro no qual está escrita a lei de 1893, que impôs a obrigatoriedade do registro das marcas. Além disso, há outros dois livros que trazem as marcas de fogo registradas no município entre 1893 e 1943. Há ainda um autêntico ferro utilizado para marcar animais, e uma “bride” – instrumento, que, colocado no focinho de cavalos, funciona como uma espécie de “freio” da montaria.

Além disso, a presença de antigas lamparinas e placas de couro com reproduções de marcas de fogo, aliados a um “intruso” aparelho de som que toca a “Cantiga do boi encantado”, de Elomar Figueira, levam a que o frequentador se aproxime do imaginário do sertão da ressaca, em plena República Velha. Para fins de contextualização a respeito da mostra, alguns banners trazem um texto com informações extraídas dos livros História de Conquista: crônica de uma cidade, de Mozart Tanajura, e Revista Histórica de Vitória da Conquista, de Aníbal Lopes Viana.

Propriedade e poder – Inspirada na cultura portuguesa, a prática de ferrar gado estava relacionada também à demonstração de poder pelos núcleos familiares mais influentes. “As marcas de fogo, objetivamente, tinham um papel simbólico de registrar e demarcar a propriedade do criador. Mas elas pontuam também o poder do coronel”, explica o historiador Jailson Ribeiro, servidor do Arquivo Público e responsável por organizar a mostra “Marcas de uma tradição”.

“Essas marcas, de alguma forma, vão se apropriar também do poder desses clãs familiares. Então, as marcas de fogo acabam ganhando um status diferenciado. Não só administrativo, mas também de um poder social e político que existia na época”, relata Ribeiro.

‘Abrindo arquivos’ – Com a mostra “Marcas de uma tradição”, o Arquivo Público Municipal é uma das nove instituições da Bahia a participar da 1ª Semana Nacional de Arquivos, que acontece entre 5 e 10 de junho. O evento é promovido pelo Arquivo Nacional e pela Fundação Casa de Rui Barbosa e reúne mais de 100 instituições culturais em todo o país, com programações diversas. “O objetivo básico é abrir os arquivos à comunidade, de forma gratuita”, informa Jailson Ribeiro.