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Postado em 25 de novembro de 2025 as 15:47:47
Na manhã desta terça-feira (26), o CAPS AD III realizou o lançamento do livreto “Não aceito que minha história vai terminar assim – Memórias de usuários do CAPS AD III”, uma publicação organizada por estagiários do curso de Psicologia da Fainor. O material reúne relatos de vida de usuários do serviço, construídos a partir da oficina terapêutica “Minha história merece um livro”, desenvolvida ao longo dos últimos meses pelos estagiários como parte das atividades de cuidado e reinserção social.
O lançamento ocorreu durante a Assembleia Geral do CAPS, um espaço de controle social que acontece mensalmente e reúne usuários, equipe técnica e estagiários para discutir ações, demandas e fortalecer o protagonismo de quem utiliza o serviço.
De acordo com a gerente da unidade, Thâmara Andrade, essa visibilidade dá a oportunidade de o usuário refletir sobre a sua caminhada: “quando cada usuário contou um pouco da sua história, ele pôde refletir também no seu processo de cuidado e, através disso, criar uma nova forma de viver, refletindo como ele gostaria de ali por diante, dar visibilidade para essa vida. E essa questão é muito importante para o processo de cuidado e saúde mental, porque, geralmente, pessoas que têm esse adoecimento mental, principalmente usuários de álcool e outras drogas, são invisibilizadas pelo sistema, por nós, o nosso dia a dia. E, muitas vezes, a gente foca muito na questão do uso da substância, no álcool, no crack, na cocaína, e a gente esquece que ali existe uma pessoa por trás daquele uso, existe uma história, existe uma vida, existem famílias, e isso é muito importante resgatar e trazer esse entendimento, tanto para os usuários que participaram, os que estão vendo isso, para nós, enquanto profissionais, e para toda a sociedade.”
A proposta do livreto nasceu dentro do contexto das oficinas terapêuticas, que são fundamentais no modelo de cuidado dos Centros de Atenção Psicossocial. No CAPS AD III, essas atividades integram o trabalho cotidiano da equipe interdisciplinar, composta por psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, educadores sociais, psiquiatras, técnicos de enfermagem e outros profissionais. O objetivo é promover cuidado integral, fortalecer vínculos, oferecer suporte psicossocial e incentivar processos de autonomia e reinserção social de pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas.
Os estagiários responsáveis pela organização do livreto destacam que o processo de escrita, memória e escuta sensível trouxe impactos significativos para todos os envolvidos. “Foi uma experiência muito interessante, principalmente de aprendizado, porque por mais que nós tenhamos vindo aqui para o CAPS AD III como estagiários, para realizar intervenções, a gente muito mais aprendeu do que ensinou qualquer coisa. E o ponto mais interessante, que inclusive a gente comentou aqui na assembleia, é ver que, apesar do CAPS AD III ser um dispositivo único pensando no nível de estrutura, a forma como atravessa e afeta cada usuário é diferente”, disse o estudante de psicologia e produtor do livreto, Saulo Albert.
Ana Luiza, estudante de Psicologia e também produtora do material, falou sobre a importância de dar voz aos usuários: “é muito importante para eles que sejam ouvidos e, além de tudo, ninguém melhor do que contar a história deles do que eles mesmos. A gente não pode, como profissionais, falar o que eles devem ou não devem fazer, sendo que pessoas que estão passando pelo mesmo processo às vezes têm muito o que dizer também e muitos conselhos a dar. Então, é importante dar voz a essas pessoas para que elas possam ajudar umas às outras no processo.”
Para os usuários, ter suas histórias reconhecidas e registradas em uma publicação representou um momento de afirmação e pertencimento. Carlos Alberto, usuário do serviço, falou sobre a importância dessa ação e sobre seu acolhimento no CAPS: “A gente está falando da nossa vida através desse livro. Eu venho aqui para tratar de álcool e para sair e libertar disso. E o CAPS foi o meu refúgio. O CAPS é uma família pra gente, eles estão aqui de portas abertas para atender e eu gosto muito daqui.”
Além do lançamento do livreto, a assembleia deste mês também contou com a realização da oficina de cidadania com o tema “Letramento Racial”, em alusão ao Novembro Negro. A atividade buscou promover reflexão sobre racismo estrutural, identidade e direitos, fortalecendo a consciência crítica dos usuários. A proposta reforça a importância de discutir questões raciais dentro dos serviços de saúde mental, já que o enfrentamento ao racismo é parte fundamental da construção de autonomia, cidadania e cuidado integral.
Segundo a educadora social, Mariana Nascimento, é indispensável tratar o tema, tendo em vista que a maioria dos usuários é composta por pessoas pretas e pardos. “Nós estamos no Novembro Negro e é importante a gente tratar dessa temática, destacar que nós, população negra, somos população negra 365 dias no ano, então, a gente reforça o debate no Novembro Negro, que não pode ficar restrito apenas a semana do dia 20 de novembro. É importante a gente trazer esse debate para os nossos usuários do CAPS, porque eles precisam também desse reconhecimento, desse letramento, pois muitas pessoas, pelo nosso processo histórico, ainda não se reconhecem como negras”, afirmou.
O CAPS AD III segue desenvolvendo oficinas, acompanhamento terapêutico, atendimentos individuais e coletivos, visitas domiciliares e outras estratégias de cuidado centradas na redução de danos e na construção de autonomia, reafirmando seu papel essencial na rede de atenção psicossocial do município.
















