Professora Ana: três décadas dedicadas à educação rural

Mais de 30 anos de trabalho no povoado de Furadinho a transformaram numa unanimidade entre os moradores

No povoado de Furadinho, a cerca de 30 quilômetros da área urbana de Vitória da Conquista, a professora Ana Fernandes dos Santos, 54, é uma unanimidade. “Para nós, ela é tudo. É uma pessoa que merece os nossos aplausos. Ensinou aos meus filhos e agora está ensinando aos meus netos”, diz Mauriza de Jesus, 65, que mora na localidade há quarenta anos.

As opiniões não diferem muito entre os outros moradores. Para que se tenha uma ideia da forma como eles se relacionam com Ana, basta dizer que boa parte a escolheu para madrinha de casamento ou de batismo. Ela perdeu a conta de quantas vezes recebeu esse tipo de convite. “Eles têm muita consideração por mim”, atesta a professora.

Essa relação existe há 31 anos, desde que Ana, recém-formada como professora, entrou para a Rede Municipal de Ensino. Antes, teve experiências rápidas em outras unidades de ensino. A primeira escola municipal onde trabalhou foi a John Kennedy, em Poço Verde, onde esteve durante três meses, em substituição à professora titular, então em licença como gestante. Em seguida, passou quarenta dias na Casimiro de Abreu, em Juazeiro, cobrindo a ausência de outra colega, desta vez por motivos de saúde.

Foi aí que surgiu a vaga na Escola Municipal José de Alencar, em Furadinho. Ana chegou à comunidade em meados de 1984. Ela garante que a simpatia foi imediata. “Cheguei aqui e amei. O povo é muito acolhedor e me ajudou muito”, conta. Talvez tenha contribuído para isso a origem rural de Ana no município de Tanhaçu, onde nasceu.

Tempos difíceis – Mesmo com todo o acolhimento que obteve por parte da população, os primeiros tempos não foram fáceis para a professora. Naquela época, não havia transporte escolar para os professores. Quem dava aulas na zona rural, tinha de se virar para conseguir caronas ou pagar por passagens de ônibus. Assim, Ana passava toda a semana em Furadinho, hospedada na casa de algum morador. E, na sexta-feira, retornava de carona em carros dos Correios.

Na escola, ela era responsável por aproximadamente cem alunos. E, além de professora, também tinha de desempenhar os papéis de faxineira e cozinheira. O fogão era a lenha. “Eu me levantava de madrugada para colocar o feijão no fogo. Dava dez horas da manhã e o feijão ainda não estava cozido”, ela recorda.

‘Riqueza’ – O direito ao transporte escolar só viria a ser assegurado pela Prefeitura – tanto para professores quanto para alunos – em fins da década de 90. A partir daí, Ana pôde ir e voltar todos os dias. Nesse meio-tempo, o Governo Municipal também promoveu mudanças e aperfeiçoamentos na escola local e passou a garantir o acesso ao ensino em todo o interior do município.

Ana lembra que, antes, a maioria dos alunos estudava apenas até a antiga 4ª série, pois a etapa seguinte (o que então se chamava de “ginásio”) não era oferecida na maior parte da zona rural. A situação atual é bem diferente. “Falo para meus alunos que hoje eles estão na riqueza. Só não estuda quem não quer”, relata a professora.

Atualmente, Ana se confunde com a comunidade de Furadinho. Solteira e sem filhos, ela passa praticamente todo o tempo em contato com os moradores. Até mesmo em alguns finais de semana, quando é convidada para algum aniversário ou casamento no povoado.

‘Realizada’ – Diz-se “apaixonada” pelo que faz. “Quando vejo um aluno que antes nem sabia como segurar um lápis direito, aprendendo as primeiras letras, é muito gratificante. Não tem dinheiro que pague”, explica.

Com relação a sonhos, ela garante que se contenta com os que vivencia no cotidiano. “Já me realizei”, afirma, referindo-se à graduação em Pedagogia, antigo objetivo finalmente alcançado em 2013, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). E, mesmo nesse momento, a “sua” comunidade estava presente. Ela convidou alunos e pais de Furadinho para sua cerimônia de colação de grau. “Eles nunca tinham visto uma formatura. Eu os levei também para incentivá-los a continuar nos estudos”, diz.

Novos dias – Cientes disso, alguns dos ex-alunos de Ana hoje fazem pós-graduação em outros estados, e até em outros países. Ela se orgulha tanto disso que os mantém numa lista, periodicamente atualizada.

A aposentadoria não está em seus planos. “Não me vejo parada”, justifica-se. Por isso, diz querer apenas continuar a lidar com seus alunos e desfrutar diariamente dos pequenos progressos que eles conseguem durante as aulas. “Cada dia que eu chego aqui em Furadinho é como se eu chegasse pela primeira vez”, resume a professora.

Notícias Relacionadas

Administração
23/06
Prefeito assina decreto que reajusta o valor do auxílio-alimentação
Administração
07/06
Exposição conta parte da história de Vitória da Conquista através de antigas marcas de ferrar gado
Administração
05/06
Prefeitura realiza primeira etapa de seleção para profissionais de TI
Administração
22/05
Nota de esclarecimento