Mostra Cinema Conquista: conferências e oficinas trazem debates sobre questões que vão além da tela

Estratégias alternativas de exibição para filmes de baixo orçamento estiveram na pauta do dia 7

As salas de cinema existentes no Brasil estão concentradas em pouco mais de 10% dos municípios – o que significa que aproximadamente 90% não dispõem de nenhum local para a exibição pública de filmes. No entanto, a produção cinematográfica nacional cresceu de forma vertiginosa nos últimos dez anos – de aproximadamente 30 filmes por ano, já chegou a quase 200. O que fazer para que os filmes – sobretudo as produções de baixo orçamento – sejam vistos por esse grande número de brasileiros órfãos de salas de cinema?

Foi essa a questão posta em debate nessa quarta-feira, 7, no Teatro Glauber Rocha, como parte da programação acadêmica da Mostra Cinema Conquista. Como debatedores, dois diretores e produtores, Cavi Borges e Ricardo Targino – ambos empenhados na busca por métodos alternativos de distribuição e exibição para seus filmes.

‘Circuito popular’ – Diretor do longa Quase samba, Targino descreve como “maravilhosa” uma experiência que pôs em prática para fazer com que seu filme chegasse ao conhecimento de um número maior de pessoas.

Após conseguir R$ 200 mil do Fundo Setorial do Audiovisual, ele resolveu investir esse recurso numa estratégia alternativa. Criou uma plataforma na internet, uma espécie de formulário, por meio do qual pessoas de várias localidades poderiam se cadastrar para se tornar exibidores voluntários do filme.

Tendo se cadastrado, esses agentes promoviam sessões gratuitas em praças públicas, condomínios, associações de moradores, enfim, em qualquer lugar das regiões onde moravam.

Em dois meses, foram realizadas aproximadamente 150 sessões, nas quais Quase samba foi visto por cerca de 3.500 pessoas. A estratégia incluiu ainda sessões do filme via internet, seguidas de um debate transmitido ao vivo. Aliando-se ao potencial das redes sociais como disseminadoras de informação, o filme já era relativamente conhecido na etapa seguinte, quando foi incluído no circuito comercial de exibição.

“Nós precisávamos, de algum modo, criar algum barulho ao redor do filme. Como o espaço das salas que a gente tinha era muito pequeno, pensamos em jogar o máximo que a gente pudesse nesse circuito, que é o que vai nos dar o ‘bis’”, explicou Targino, referindo-se ao burburinho resultante do sucesso das exibições no “circuito popular”, e à expectativa gerada quando o filme chegou às salas de cinema propriamente ditas.

Por isso, o diretor acredita que há, sim, meios de driblar as dificuldades. “Quem disse que não há público para os nossos filmes? Acho que o que precisa é a gente se dar a responsabilidade de construir o lugar deles no mundo. E o ponto de partida que temos é muito bom”, explica Targino.

‘Debate e discussão’ – O carioca Cavi Borges também conhece as dificuldades de trabalhar em cinema dispondo de poucos recursos financeiros. Mas parece não interferir, pelo menos, na intensidade com que sua equipe produz. Nos últimos dez anos, por meio de sua produtora, a Cavídeo, ele produziu 110 curtas e 42 longas (entre eles o documentário Cidade de Deus – 10 anos depois, já exibido numa edição anterior da Mostra) – e sempre com pouco dinheiro. Recentemente, abrir sua própria distribuidora.

“No mercado atual, as distribuidoras estão interessadas nos filmes grandes, que têm retorno financeiro. E os nossos filmes são curtas, médias, documentários que estão mais preocupados com o debate e com a discussão do que efetivamente em ganhar dinheiro”, relatou Cavi.

“As poucas distribuidoras que existem não dão conta dos filmes que a gente faz. Então, para evitar que eles ficassem guardados na produtora, resolvi criar uma distribuidora e tentar entender, aprender e pensar em novas possibilidades para exibir os filmes”, complementou o diretor-produtor.

A experiência de Cavi em fazer tantos filmes com tão poucos recursos tornou-o credenciado para ministrar, nesta edição da Mostra, a oficina “Como fazer um filme de baixo orçamento” – uma das que estão sendo oferecidas até o dia 9, sempre a partir das 14h, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). “Tomara que a minha experiência também inspire as pessoas daqui a criarem seus próprios métodos alternativos de distribuição e produção”, pontuou.

‘Troca enriquecedora’ – Essa “inspiração”, mencionada por Cavi, é o que se busca nas oficinas disponibilizadas pela Mostra – que transcorrem de forma simultânea à programação de atividades acadêmicas e à exibição dos filmes. “No fundo, acaba sendo uma troca muito prazerosa e muito enriquecedora para os dois lados”, avalia João Godoy, professor do Departamento de Cinema da Universidade de São Paulo (USP) e responsável, na Mostra Cinema Conquista, pela oficina sobre “A construção da trilha sonora cinematográfica: do roteiro à mixagem”.

* Foto: Micael Aquillah.

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