Estudantes escrevem por uma causa justa

Elas participaram das discussões sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes – e ainda foram premiadas por isso

Ainda se pode falar em Dia do Estudante? Claro que sim, embora a data tenha sido celebrada oficialmente nessa terça-feira, 11. Após as comemorações que se espalharam pelas unidades escolares da Rede Municipal de Ensino, a série “Cada Vida Uma História” traz hoje, excepcionalmente, não uma, mas três histórias interligadas. E, em lugar de servidores públicos municipais, as personagens são estudantes.

Elas foram premiadas num concurso de redações promovido pela Prefeitura de Vitória da Conquista, por ocasião do 3º Seminário Municipal de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes. Os participantes deveriam abordar o tema trazido à discussão pelo evento, durante os dias 18 e 19 de maio. Seus textos foram considerados os três melhores– e, por isso, cada autora ganhou um tablet. Mas, antes de maiores detalhes, vamos conhecê-las melhor:

‘Realizada’ – A participação era opcional. No entanto, assim que soube do concurso, Ingrid Domingues Morais, 14 anos, pensou imediatamente em se inscrever. “Sou competitiva”, ela revela. No entanto, o que lhe despertou a competitividade não foi somente a chance de ganhar o tablet. Ela garante que havia muito mais que isso a lhe incentivar. “Não foi nem no prêmio que fiquei interessada. Foi na satisfação de concorrer com tantas pessoas, ter um bom desempenho e conseguir ganhar”, explica.

Ingrid mora com o padrasto, a mãe e os cinco irmãos no povoado de Lagoa dos Patos, a três quilômetros do distrito de José Gonçalves. Cursa o 9º ano do Ensino Fundamental no Centro Educacional Moisés Meira. Diz apreciar, especialmente, as aulas de Filosofia e Português – o que talvez explique, em parte, seu interesse por leitura e pesquisa. A isso, ela acrescenta o hábito de exercitar a escrita, a fim de se aperfeiçoar. “A pessoa tem que ter esse objetivo. Para tudo na vida, você vai precisar de leitura e escrita”, observa.

As informações que lhe permitiram escrever sobre violência sexual contra crianças e adolescentes, ela diz tê-las conseguido numa palestra ministrada pela equipe do Centro de Referência Especializado de Assistência Social Rural (Creas Rural). “Ajudou bastante”, assegura a estudante, que considera “uma covardia” esse tipo de agressão. “E ainda mais por ser contra crianças e adolescentes, que são pessoas ainda com a mentalidade em formação”, defende Ingrid. Ela define como “gratificante” a chance de participar do concurso: “Eu me senti realizada por ter conseguido chegar ao meu objetivo”.

‘Fiquei feliz’ – Joice Silva Lima, 14, reconhece que sempre preferiu Matemática a Português. Ainda assim, a adolescente aceitou se inscrever no concurso de redações. Em seu texto, além de tratar de violência sexual, ela mencionou o racismo. “É uma forma de violência, também”, justifica-se.

Matriculada no 9º ano do Centro Educacional Eurípedes Peri Rosa, no distrito de Bate-Pé, Joice conseguiu no acervo disponível na sala de leitura da escola as informações que utilizou para fundamentar sua redação. E, quando lhe informaram que havia sido uma das três vencedoras, não teve como disfarçar a surpresa. “Fiquei feliz, mas eu nem imaginava…”, diverte-se a estudante.

Tendo constatado que seu potencial também existe em matéria de texto, Joice agora poderá desfrutar das possibilidades pedagógicas oferecidas pelo tablet que sua redação lhe rendeu. “Com ele, pretendo fazer pesquisas e atividades da escola”, diz a adolescente, que mora com a família em Poço do Gato, a três quilômetros de Bate-Pé.

‘Timidez, orgulho, felicidade’ – Daiane Santos Souza, 15, teve sua redação considerada a melhor entre as apresentadas pelos estudantes da Escola Municipal José Mozart Tanajura, situada no bairro Vila América – o mesmo onde mora com a mãe, diarista, o padrasto, vendedor de gás, e a irmã mais nova, de 12 anos. E, também para ela, a escolha de seu texto foi uma monumental surpresa, apesar de seu apreço pelas aulas de Português e Artes.

Na verdade, ela inicialmente não sentiu ânimo para participar do concurso. Mas mudou de ideia no mesmo dia, depois do horário escolar, num momento em que ficou sozinha em casa e pôde repensar sua atitude. Aí, pegou o caderno e a caneta e lembrou-se do filme a que assistira na escola, horas antes, cuja temática – violência sexual contra crianças e adolescentes – era a mesma de que deveria tratar na redação.

Redigiu então o texto, passou-o a limpo e o entregou no dia seguinte à direção da escola, ainda sem grandes pretensões. Entretanto, Daiane reconhece que, intimamente, uma possível premiação lhe despertava certas expectativas. “Falaram para a gente que não era obrigatório participar, mas que concorria a um tablet”, lembra.

“Aí, no outro dia, cheguei à sala de aula e as pessoas estavam comentando que eu tinha sido premiada”, conta a estudante, tímida. Daiane descreve o momento em que recebeu seu prêmio, diante de todos os colegas, como um misto de “vergonha, orgulho e felicidade”.

Protagonistas e multiplicadores – O concurso de redações foi apenas uma das estratégias utilizadas pelo Governo Municipal, nos dias 18 e 19 de maio, para pôr em discussão a violência sexual contra crianças e adolescentes. A mobilização envolveu a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, por meio do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas – em suas divisões urbana e rural), o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica) e a Secretaria Municipal de Educação.

“Levamos o tema para que os adolescentes refletissem e fizessem redações sobre ele. A ideia era que os estudantes pudessem ser protagonistas e multiplicadores, levando essas informações para outras pessoas”, esclarece a secretária interina de Desenvolvimento Social, Kátia Silene Freitas.

Para denunciar – Esse trabalho permanece, por meio de palestras que continuam a ser feitas em outras escolas, além das que inicialmente participaram do concurso. “O principal objetivo é realizar um trabalho intersetorial sobre a temática da violência sexual, despertando também para a importância da denúncia”, prossegue Kátia Silene.

Para denunciar casos desse tipo, basta ligar para o Disque 100 ou para os conselhos tutelares existentes em Vitória da Conquista: o da zona leste (77 3425-7376), o da oeste (77 3424-4735) e o da zona rural (77 3422-5928).

Notícias Relacionadas

Desenvolvimento Social
06/12
Palestra encerra os 16 Dias de Ativismo pelo fim da violência contra a mulher
Desenvolvimento Social
06/12
Na Fazenda Paixão, mais de 100 pessoas são atendidas pelo Bolsa Família Móvel
Desenvolvimento Social
05/12
Conquista Criança encerra o ano letivo com evento para os pais dos alunos
Desenvolvimento Social
04/12
Bolsa Família Móvel estará em Lagoa das Flores nesta quarta, 6